Hipotermia acidental: aspectos relevantes para emergencistas de países tropicais

Área: Hospitalar

GABRIEL ASSIS LOPES DO CARMO

Lucas Ferreira de Sales
Eduardo Alves Gomes de Oliveira

Introdução: Hipotermia acidental ocorre frequentemente em regiões de clima temperado, principalmente no inverno. Contudo, pode ocorrer também em regiões de clima tropical, especialmente em crianças e idosos. O conhecimento da correta abordagem desses casos é fundamental para o sucesso terapêutico. Método: Relato de caso e revisão da literatura. Resumo: Paciente masculino, 57 anos, morador de rua, é levado ao Pronto Atendimento devido à crise convulsiva. Apresentava-se hipotenso (PA 70/40mmHg), bradicárdico (FC 35bpm), hipotérmico (temperatura não mensurável – <34°C) e com glicemia capilar de 400mg%. Escala de coma de Glasgow 11 (AO 4; RV 1; RM 6), com pupilas isocóricas e fotorreativas. O eletrocardiograma mostrou dissociação átrio-ventricular e ondas de Osborn. Feita hipótese diagnóstica de hipotermia grave e realizada hidratação com Ringer Lactato (2000ml) aquecido. Os resultados dos exames evidenciaram leucocitose com desvio para a esquerda, acidose metabólica grave, elevação de amilase e lipase e de escórias nitrogenadas. Foi iniciada antibioticoterapia de amplo espectro. Após 8h, o paciente evoluiu com instabilidade hemodinâmica, rebaixamento do nível de consciência e insuficiência respiratória aguda. Foi então intubado e iniciado noradrenalina. Apesar de melhora parcial inicialmente, o paciente apresentou nova piora hemodinâmica, que levou ao óbito. A hipotermia acidental, caracterizada pela temperatura central menor que 35°C, é uma condição potencialmente grave e diretamente relacionada à exposição ao frio. Nos Estados Unidos da América a mortalidade chega a 1500 pessoas ao ano e, mesmo quando tratada, apresenta taxa de mortalidade de cerca de 40%. No Brasil, durante os meses de inverno, é comum sua ocorrência em moradores de rua de cidades do sul e sudeste do país. Neste contexto podem ocorrer alterações laboratoriais, pancreatite, íleo, disfunção hepática, alterações cardiovasculares importantes com instabilidade hemodinâmica e edema agudo de pulmão, dentre outras complicações. O tratamento consiste no reaquecimento adequado ao grau de hipotermia e manejo específico das diversas complicações. Conclusão: O conhecimento acerca do diagnóstico e tratamento da hipotermia é essencial para o emergencista. Deve-se dominar as formas de reaquecimento e tratamento das arritmias, bem como diagnosticar outras complicações quando os sintomas forem discrepantes do grau de hipotermia.